Eventos

Comportamento: Para onde vão nossos abraços?

13 de setembro de 2020

Estava dando um abraço em Deus. Sim, eu abri os braços no ar quando, em meio ao sonho, supus que o enredo onírico poderia significar o desejo de ser acarinhada pelas pessoas do meu convívio. Foi uma emoção tão intensa que passei o resto da noite acordada e pensativa. Afinal, para onde têm ido todos os abraços que a gente dava e recebia? A todo momento, nos deparamos com uma cena onde é preciso recolher os braços e, de alguma forma, lembrar, em voz alta, que não devemos ter contato físico com as pessoas que encontramos no cotidiano. Nesse momento, puxamos de volta a energia que seria endereçada, em forma de abraço, àquele que está na nossa frente. É como se você oferecesse um alimento saboroso para alguém e, ao vê-lo salivando de apetite, precisasse desfazer a oferta. Dentre as tantas situações impostas pela pandemia, entendo ser essa uma das estranhezas que afetam nosso mundo psíquico.

Acredito que, mais do que nunca, a palavra empatia permeia as relações entre as pessoas, muito embora tenho a impressão de que a pandemia traz revelações de como cada ser humano funciona em relação ao próximo. Por vezes, fica nítido que a solidariedade e a perversão passam uma pela outra quase que simultaneamente. Gente que se solidariza com a dor do outro e gente que se pensa como estando acima do bem e do mal e, assim, descumpre as orientações de cuidado. O fato é que as pessoas têm reagido de formas diferentes ao atual cenário. Refiro-me aos efeitos psíquicos resultantes do distanciamento social e da situação como um todo. Ouço gente dizendo que o lado bom tem sido a disponibilidade de tempo, antes escasso, e, que, agora, pode ser investido nas relações familiares. Já ouvi pais comentando que têm aproveitado os dias para curtir os filhos, o que, outrora, era mais difícil porque chegavam tarde do trabalho, ou porque viajavam durante a semana. Se vejo gente sinalizando coisas positivas, apesar das dificuldades que esse momento impõe, também devo dizer que tantas outras não estão bem do ponto de vista psíquico. Se esse for o seu caso, não deixe a situação se agravar. Fale com as pessoas do seu convívio, comente sobre seu estado emocional e, se for o caso, não hesite em buscar ajuda de especialistas – psicólogos, psicanalistas e psiquiatras.

Não restam dúvidas de que essa nova realidade vem trazendo muitas mudanças e desafios. Se pensarmos na dinâmica familiar por exemplo, há casais que conseguiram criar mais harmonia entre si. Há outros que entendem que não se suportam mais, que estão enjoados um do outro. Considerando que os sentimentos podem estar misturados, talvez não seja o melhor momento de decidir destinos. De qualquer forma, independendo das circunstâncias, todos nós temos dias de inquietudes onde é preciso um esforço maior para manter o equilíbrio emocional. E nem poderia ser diferente, se somos destituídos até do mais genuíno dos afetos, o abraço. Por outro lado, essa privação é uma medida que preza pelo bem-estar da coletividade. E, pensando assim, tal distância pressupõe proximidade em momento seguinte. Que juntos possamos viver esse tempo como uma experiência de transformação humana.

 

Dirce Becker Delwing

Jornalista, psicóloga, psicanalista clínica

whatsapp Fale conosco